Caminhava pela rua hoje de manhã
Acompanhado de meus pensamentos
Quando de súbito percebi
Que se estivesses também caminhando
Pela rua que apoia teus passos
Estaríamos caminhando juntos
Não haveria nem muro nem parede
Que nos separasse.
Bastaria então esticar os braços
e fechar os olhos
para tocar-te suavemente.
Porque nada nos separa.
Sexta-feira, 3 de Julho de 2009
Seguindo teus passos
Terça-feira, 30 de Junho de 2009
Excertos: A Alma Imoral
"O que é certo é certo e o que é errado é errado. E quando o que é o certo é o errado e quando o que é o errado é o certo? Entender um conceito pelo seu oposto é difícil, mas entender um conceito pelo seu oposto é fotografar a alma."
"A evolução da espécie está no silêncio do pai que ergue a faca para matar um filho por ordem divina e a detém. Um silêncio que cada homem e cada mulher conhece em sua vida pessoal e coletiva. Um silêncio desafiador, que responde a um impulso interno de sagrada desobediência, uma desobediência que o homem sonha em integrar à paz, à paz que não se fará no estabelecimento de um mundo ideal para um corpo imutável, não se fará através do clone, mas através do mutante, porque o nosso ser é um ser em transformação, tem alma e não é uma alma boazinha como nos fizeram acreditar, mas uma alma profundamente imoral e isso não tem nada de satânico. É que transformaram Satã num espantalho que nos afasta das mudanças. Satã é tudo aquilo que nos embota os sentidos e que nos embota a consciência - é que é mais fácil e conveniente apresentar Satã como um possível resultado do risco do que o apresentar também como o pesadelo da acomodação. Se os que mudam radicalmente de emprego, se os que refazem relações amorosas, se os que perdem medos, se os que rompem, se os que traem, se os que abandonam os vícios experimentam a solidão é possível que essa solidão seja quebrada no encontro com outros que conheçam essas experiências. Haverá pior solidão do que a ausência de si?"
Segunda-feira, 22 de Junho de 2009
Significado
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sem quaisquer privilégios pessoais
Quarta-feira, 17 de Junho de 2009
No seu lugar pra ver você chegar
A porta estava destrancada. Não sabia como havia parado ali. Talvez tivesse ouvido um telefone chamar à distância ou então visto alguém assomar à janela do andar superior. Pensando bem, não. Nem fora o ipê carregado de flores amarelas no quintal, nem o balanço que se movia com o vento que o havia chamado. A porta estava destrancada e aquilo lhe parecia um convite. Torceu a maçaneta e sentiu a ráfaga de ar que saiu pela fresta preencher-lhe o corpo, trazendo consigo o cheiro característico da casa. Pôde perceber o perfume de algumas iguarias, duas taças postas ao chão próximas à lareira, uma garrafa de vinho por sobre a mesa de centro. Chamou por alguém. Debalde. A casa estava vazia, parecia-lhe que à noite houvera um jantar. Instintivamente foi em busca de brasas, as quais encontrou, em seu lugar, o carvão cinza e seco. Tampouco as taças exibiam marcas de lábios ávidos ou vestígios carmesinos de uvas. Sensações úmidas vinham da cozinha e, fechando os olhos, poderia imaginar que estava à beira-mar em algum ponto da costa sul da Itália com seu típico cheiro agridoce vindo de terras africanas. Subindo as escadas lentamente, como que para não ser percebido, adentrou o aposento iluminado, com voais nas janelas e tsurus que baloiçavam ao sabor da brisa. A cama desarrumada emitia maviosos cantos de prazer e sono aos quais Ulisses não resistiu. Descalçou-se, sentou-se à beira da cabeceira e sentiu a maciez do colchão. Tirou as meias, pousou o relógio no criado-mudo, desnudou-se. O linho dos lençóis envolvia-o com suavidade, revelando-lhe áreas e pequenos prazeres até então não descobertos. Virou-se de lado, de bruços e finalmente para cima. Deixou-lhe pesar a carne, deixou-se sentir homem, completo e cansado. Era bom estar assim, nu e só neste ambiente tão não seu. Estava ali em essência, tinha consigo o que lhe era genuíno, nada além de suas próprias vontades, de sua própria história e de seu corpo. Não sabe quanto tempo ali ficou, se menos de hora, se hora-e-meia. Levantou-se e, como num rito de batismo, abriu o duche e deixou-se-lhe escorrer a água por todos os poros, lavando-o de sua sina de humano. Largando molhado o piso por trás de si, regressou ao quarto ainda a tempo de ver a marca de seu corpo que se desfazia na cama. Não queria mais aquelas suas estranhas roupas amontoadas em um canto. Passou de largo pela bergère e parou em frente a uma gaveta semi-aberta na cômoda que restava naquele canto do quarto. Abriu-a e serviu-se com uma roupa de baixo, limpa e branca, discreta, assim como ele se esforçava em ser. No andar de baixo, vindo do pequeno corredor, de súbito ouviu um leve ruído. Rapidamente tentou se esconder, alcançar algo com que pudesse se cobrir. Alguém havia chegado? O que diria ao vê-lo assim, tão seu, tão limpo, tão despertencente? Esgueirou-se abaixo pelas escadas e, buscando algum movimento pela sala, foi repentinamente arrebatado pelo cheiro de comida que vinha do coração da casa, da cozinha. Levado até lá por aquele doce Siroco, avançou lentamente em direção à mesa onde pratos e panelas vaporizavam o ar. Por detrás de si viu surgir-lhe o vulto de uma pessoa, que, dando a volta por sua frente, puxou-lhe um banco e fez-lhe o gesto para que se sentasse e estivesse à vontade. A refeição foi servida e nenhuma palavra foi dita. Não se estranharam nem se fizeram perguntas. Afinal, a porta esteve sempre aberta.
Terça-feira, 9 de Junho de 2009
Se tu soubesses
Dos momentos que estivemos juntos só me restam as memórias. De teus olhos no escuro, teu hálito fresco pelas manhãs, teu abraço quente, teu afago maternal. Contudo não sabes, querida, não sabes dos sonhos que te criei. Não imaginas meu sorriso ao te ver chegar, não concebes meu dançar quando teu corpo me tocasse, não sentes a leveza de meus gestos para que tanto querer não te assuste. Tu nunca saberás das tardes de sol, das noites de frio e do vinho derramado no lençol, porque tu não sabes de mim.
Terça-feira, 26 de Maio de 2009
Querida Manu,
Hoje desencadeou-se em mim um processo de destruição (ou seria lapidação?) de mim. Ontem abri meus planos para minha mãe, meu maior ponto fraco. Disse a ela tudo, tudo mesmo, Manu. Tudo o que se passou pela minha cabeça nesse último mês. Contei-lhe da vontade de me mudar para Buenos Aires e dos benefícios que essa mudança me traria. Contei-lhe de todos os medos que me paralizam. Ela me olhou atentamente em todos os momentos, perguntou se era isso mesmo que eu queria, e disse, com certo rancor na voz, que era para eu ir logo e tirar isso de cabeça.
Hoje percebi o que se passou naquele momento. Quando conversei com ela, Manu, não estava pedindo permissão para ir ou comunicando uma decisão, eu estava pedindo acolhimento, estava pedindo era para ficar. E ela não me impediu, Manu. Ela não estendeu seus acolhedores braços em atenção ao meu pedido e em socorro à minha alma. Ela não me deu o colo que pedi. E nesse gesto, ela cumpriu com a fatalidade de seu papel de mãe. Senti que seus braços se me escapavam, assim como quando a fonte do seio se seca e não há mais leite para alimentar a criança.
Manu, nesse momento ela me botou no mundo como que dizendo "ainda que me doa, agora é com você". Senti-me sozinho e isso é amor, Manu. Não é o amor que pedi, não é o amor que eu queria. Tive o sábio amor materno que sabe do que precisa sua cria. Esse amor que cega o medo, ainda que eu ainda não esteja pronto para recebê-lo.
Sim, Manu, o amor liberta. Tirei um mundo das costas para ganhar a vazia imensidão do mundo. Estou assustado, mas com mais certeza do chão que piso... desse mesmo chão que a mim não me foge.
Segunda-feira, 25 de Maio de 2009
Vacilamento
Bem mal o sol havia se posto por trás dos montes, entrou no ônibus que o levaria em sua viagem de volta para casa. Largando de si os belos horizontes, abria espaço para a melancolia. Sentado naquela estreita poltrona, nada mais podia fazer a não ser contemplar as primeiras estrelas que surgiam no firmamento. Foi então que testemunhou que o céu, vacilante como ele, girava mais rápido com as curvas da estrada.
